segunda-feira, 9 de abril de 2018

A CORAGEM E O SONHO


Ana Maria M. González

A LIVRARIA, o filme de Isabel Coixet, é baseado no livro de Penelope Fitzgerald de mesmo nome. Vale lembrar que esse filme na premiação Goya (da Academia de Artes e Cinema espanhola) em 2018 foi  indicado em onze categorias e ganhou três: Roteiro Adaptado, Diretor e Melhor Filme. Isabel Coixet é veterana e conta entre seus inúmeros filmes A HISTÓRIA SECRETA DAS PALAVRAS.

No final dos anos 50 em uma pequena cidade do litoral da Inglaterra, Florence Green (Emily Mortiner) coloca em prática o sonho de abrir uma livraria. Ela não sabe que encontrará todo o tipo de resistência de figuras importantes da cidade.
E assim, pouco a pouco vamos descobrindo quais são essas resistências e como se constroem as alianças políticas que se colocam contra esse projeto tão aparentemente eficiente e útil para a cidade.

Enquanto Florence trabalha para a manutenção de seu projeto, desenvolve vínculos de afeto e cumplicidade com a pequena Cristine e com o Edmund Brundish, figura solitária e misteriosa, em torno da qual muitas histórias são inventadas. Trata-se de um povoado pequeno em que as conversas e fofocas se multiplicam acerca de todos os habitantes.

E as forças do poder em suas variadas formas de manipulação acabam por desmoronar seu sonho. Florence vê seu investimento ser destruído até que vai embora sem auferir nenhum benefício de todo seu esforço.

Mas, a narrativa não acaba nesse vácuo de frustração e desconsolo. Ele apresenta uma surpresa que não será contada aqui. Nem esse filme se limita a essa história, que guarda complexidades e finas análises da natureza humana que poderão colocar á prova nossa capacidade de percepção. Tudo isso em um pequeno contexto social com um pedaço de uma natureza grandiosa.

Fica o convite para esse filme delicado e bonito em que o trabalho de câmera com marcações especiais substitui um excesso desnecessário de palavras. O universo criado pela diretora tem ação aparentemente lenta e essa escolha é significativa. Uma leitura em voz alta pelas personagens traz inovação na maneira de narrar substituindo a simples leitura de cartas escritas entre elas, dando um toque (especial) literário à história.

Por sua vez, a paisagem e os ventos nas ramas das árvores e folhagens são detalhe que é também parte importante da beleza desse filme.

Trata-se de uma história de amor aos livros, à leitura e à coragem humana, uma das mais importantes virtudes da natureza humana segundo um essencial diálogo entre Florence e Edmund.

E para nós, sobra a sensação de que os sonhos merecem ser perseguidos porque os movimentos nessa direção deixarão rastros mesmo que não nos apercebamos deles. Há uma rede de influência mágica e sutil entre as pessoas que é amplificada gerando frutos, em princípio, invisíveis.

Mais à frente, tais rastros dirão a que vieram. E haverá sua manifestação e, então, tudo estará em paz.

segunda-feira, 5 de março de 2018

O INSULTO, OU A INVASÃO BÁRBARA DAS EMOÇÕES


Ana Maria M. González

Este artigo tratará de um filme que se passa em Beirute, em contexto social complexo. Engana-se, porém, quem julgar precipitadamente que a difícil situação político-religiosa local justifica tudo o que vem depois de um insulto, um pequeno fato. A elaboração do tema da ofensa verbal adquire complexidades nas mãos talentosas do diretor. Ele nos oferece mais para pensar do que uma explicação simplesmente óbvia. São muitos os mistérios da natureza humana.  

                                                 
UM INSULTO APENAS

Como um ataque verbal pode tomar proporções imensas a ponto de mexer com a opinião pública de um país? Esse é a linha principal do filme O INSULTO, indicado ao prêmio de melhor filme estrangeiro. A direção do filme é de Ziad Doueiri (1963), libanês que estudou nos EUA e vive na França atualmente. Ele tem na bagagem o trabalho de assistente de câmera junto a Quentin Tarantino em alguns filmes , entre os quais
 Pulp Fiction.
 
Toni (Adel Karam) é um cristão libanês que, regando suas plantas na varanda, molha o palestino refugiado Yasser Abdallah Salameh (Kamel El Basha) engenheiro responsável por uma obra no bairro em que Toni mora. O engenheiro por conta de sua responsabilidade faz a instalação do cano que resolve o problema sem o consentimento de Toni, que reage com muita raiva. Quebrar o cano a marteladas é apenas o começo de uma série de atitudes temperamentais que crescem fora de qualquer lógica. Às marteladas, segue-se um xingamento de Yasser. Está montado o circo. Um xingamento, uma humilhação, agressão física e em crescente complicação, uma questão judicial, mais aspectos de problemas políticos e religiosos, descobertas de segredos pessoais. Em intensa fermentação, com a presença da mídia e de autoridades, o povo da cidade se envolve, contra e a favor. Quem tem razão?
                                               
A INVASÃO BÁRBARA
Quando eu escolhi assistir a esse filme, fui preparada para as questões políticas e religiosas, características daquela região do Oriente Médio. Guerras, disputas, mistura de sacro e profano. Puro preconceito meu, claro. Ideias à priori, que eu estava trazendo dentro de mim.

Felizmente, a narrativa foi se ampliando para além das minhas preconcepções e desfazendo tais ideias, me surpreendendo. As ações foram se acumulando em ritmo de cortes rápidos e desenhando dois contextos, um externo e relacionado ao coletivo e social, e outro subjetivo e relativo às personagens masculinas, protagonistas e opostas.
Elas são foco e presença em constante confronto de posturas, de temperamento e de ideias. Cada um com suas histórias e preferências. Aos poucos, conhecemos suas histórias particulares, a partir da interferência dos argumentos dos advogados. Essa abertura para informações da vida de cada um deles, justificaria seus comportamentos? Justificar para então avaliar ? Não me parece ser assim que funciona o sistema judicial.

Cresce o burburinho, crescem opiniões ligadas à ideologia e situação social de cada um: minoria cristã e
 palestinos refugiados. Em uma região em que a guerra está no ar, mais dados são adicionados para conspirar contra a solução do problema. Aumentando a confusão deste cenário coletivo, surge a questão dos judeus e do sionismo.

O que era no começo uma questão de calha ilegal de uma varanda e de um xingamento pessoal, ao final da narrativa, tinha alcançado proporções de um tribunal com cobertura midiática e repercussão em toda a nação. A interferência de autoridades e das mulheres de cada um, todos em tentativa de apaziguamento. Em vão. Posições irredutíveis mantidas. 

Desde o início, observamos as emoções dominando as decisões pessoais de um e outro. Uma falta de lógica que conduz ao crescente absurdo, que beira o irracional. Não é inútil a discussão a respeito da natureza humana em meio às intervenções apresentadas pelos advogados no tribunal. Essa invasão de argumentos que têm caráter emocional é maior do que o fato detonador em si, que foi atropelado por outras questões mais amplas não por acaso ligadas à natureza humana.

As emoções são oportunistas e embarcam nas ideologias religiosas ou políticas. Pegam carona. Assim Toni parece jogar sua raiva e indignação por um fato da infância, contra uma pessoa que representaria um oponente capaz de receber tal culpa. Esse exagero de raiva e agressividade se contrapõe ao controle e silêncio resiliente de Yasser.

Há guinadas de expectativa no tribunal. E o acirramento da postura da população não diminui. Esse descontrole, talvez seja a expressão daquela parte da natureza humana que é bárbara e que torna difícil a resolução das disputas. Aquela que se aproxima do cérebro reptiliano e da irracionalidade. Nesses casos não há lugar para diálogo, nem para clareza de argumentos. A agressividade e o confronto corporal são a linguagem possível nessa guerra.
Orgulho e agressividade, paixões e raiva consumiram Toni e Yasser. E invadem a população fora do tribunal. Essa barbárie que é coletiva, começa dentro de cada um, tem um respaldo subjetivo que é alimentado pelo comportamento social do grupo. É no escondido de nossas emoções que ela prolifera. Um descuido, e pronto! Exteriorizada sai do controle.

Ao final do julgamento os olhares desses dois homens se encontram de forma diferente. Aceitam que sua querela terminou? Toni sentindo--se absolvido por suas memórias , pode olhar seu oponente, de forma diferente? Yasser, em sua observação muda (orgulhosa?) sente que se fez a justiça? Fez-se uma paz, enfim?  

Sim, a natureza humana é cheia de sutilezas. Merece ser elaborada e não no tempo de um julgamento. O diretor aponta para a sua complexidade. Ela é a mesma para todos, minorias cristãs e palestinos refugiados, que antes de serem grupos são coleção de indivíduos.

Somos todos iguais. A vida é igual para todos. Difícil. Não nos enganemos.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

LUCKY, OU, UM SORRISO APENAS

Ana Maria M. González

SERÁ UM FAROESTE?

Podemos até pensar que esse filme é uma espécie de faroeste por inúmeros aspectos. Na verdade, sem tiros e sem mocinha. Mas temos botas, chapéu surrado e saloon com prostituta. A (linda) sonoplastia traz gaita, claro! Talvez seja uma homenagem ao estilo. Mas, principalmente, assistimos a uma reflexão a respeito dos significados das palavras, da amizade, da vida e da morte, da capacidade de transformações em nossas vidas. E do poder de um sorriso.

O VELHO LUCKY     
    
Lucky (2017),  dirigido por John Carroll Lynch, tem Harry Dean Stanton (Paris, Texas) como protagonista e, entre outros, David Lynch (normalmente mais discreto) em papel memorável.

O filme mostra a rotina do dia-a-dia de Lucky, um ateu ranzinza e de pouca fala, ex-soldado da Segunda Guerra. Seu despertar e ligar o rádio, a higiene pessoal, a ginástica. Seus cuidados com a aparência e caminhadas pela cidade. Palavras cruzadas e café. Assistir à TV para programas de jogos com auditório. Falar ao telefone vermelho.

Uma vida organizada e que se desenrola tranquilamente até que um dia ele cai ao chão. Desmaio? O médico depois de exames lhe dá o diagnóstico: Velhice. “Não vou lhe proibir o cigarro , o que isso sim, poderá lhe fazer mal”.
Um tanto desconsolado, o caubói volta à sua rotina. Mas algo aconteceu. Uma crise se instalou.

Continua fazendo suas longas caminhadas até a vila e fumando muito em todos os lugares. Em todos não. Há uma casa noturna que o teria expulsado, por ter acendido um cigarro!, visto que é proibido. Será verdade? Segundo Lucky, não é essa a verdade.

PALAVRAS CRUZADAS

Ele anda até a cafeteria e senta para um café e palavras cruzadas. Envolve os conhecidos em seu jogo, pensando as palavras, procurando seu significado. Tem em sua casa em local apropriado um dicionário para consultas.

Realismo é uma coisa?, ele pergunta. A resposta vem: “Sim, é aceitar a situação como ela é e lidar com ela de modo adequado”. Questionar as palavras é um exercício aplicado às experiências de vida.

À noite, no bar, toma seu Bloody Mary e troca ideias. E esse universo limitado é vivido assim de forma simples e inteligente, entre velhos amigos participando de seus importantes diálogos. 

A Elaine, dona do saloon, ops! do bar, conta como passou a ser respeitada em um mundo de homens. Howard conta como foi afetado pelo animal de estimação (um cágado).

Em outros momentos, outros diálogos. O soldado no restaurante relata uma cena de guerra contundente em que ele se depara uma criança que lhe trouxe uma verdade da vida em forma de pura alegria.  E Lucky nos confessa a maior tristeza de sua vida, que foi a morte de um rouxinol, por sua responsabilidade, que parou o canto e fez “baixar o silêncio no mundo. Foi devastador ”. São todos diálogos essenciais em relação a essas personagens.

HOMEM AFORTUNADO

Vamos nos afeiçoando a esse homem comprido,  magro e de poucas falas, já que para ele  “o silencio é melhor do que conversa mole” .

E a personagem vai se revelando aos poucos. Parece tratar-se de um homem duro, que não foge de uma briga e gosta de quebrar regras. Na verdade, o quadro que temos dele é mais complexo do que qualquer descrição didática. Sendo cético, ao cair no chão em desmaio, geme “Jesus Cristo”!  

E ele vai se abrindo a uma gama de emoções que passa pela confissão de medo (da morte?). E ainda por outra que traz a lembrança triste de sua infância. Há necessidade de revelar essa dor (e culpa?) para se safar dessa memória incômoda, angústia. Há um descongelamento em curso nesse caubói.  

Até que, em festa de aniversário, ele canta de improviso uma canção de amor, em espanhol junto dos mariachis. Teria ele se lembrado de uma mulher, de uma história de sua vida?

E outros acontecimentos vão se juntando nesse filme que é lento mas, que tem vários níveis de acontecimentos, de silêncios e de emoção.

Não podemos medir o tamanho das mudanças que ocorreram dentro dele a partir da crise pós desmaio. Mas, podemos identificar sinais, delicadezas como o canto na festa falando de amor. Ou quando ele olha para dentro do tubo que é a entrada do espaço noturno Eve´s, e enfim, a câmera nos mostra o que tem dentro. Um cenário verde, de águas e cantos de pássaros. Como se, agora ele pudesse olhar esse pedaço de paraíso perdido sem o amaldiçoar com xingamento.

A câmera abre alguns segredos e guarda outros. Se podemos ter a perspectiva da entrada da casa noturna, não ficamos sabendo quem é a parceria do telefone vermelho. Da mesma forma, somente nós ficamos sabendo que o cágado está bem perto dali, enquanto seu dono passa por estágios de sofrimento variados até que aceita a perda e a solidão. Estratégias do diretor e do roteirista. Detalhes de um grande filme.

Nos instantes finais, Lucky pára em frente ao pé de cactos e nos dá um sorriso que alivia e amansa a rudeza de sua face. Um sorriso que nos lembra a história da criança que sorri para o destino a partir de sua alma. Pura alegria.

Por que ele seria um afortunado? Pelo trabalho na cozinha de um navio na Segunda Guerra? Pela maneira de viver? Pela aceitação do realismo na vida? Por isso tudo?

Enquanto isso o cágado está bem perto, naquele cenário agreste e seco. Andando no sentido inverso daquele do início do filme. Ele abriu e agora fecha a narrativa. Nada mais justo, surpreendente e correto.

É o momento do nosso sorriso.

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quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

RAINHA VITÓRIA E ABDUL, UMA AMIZADE IMPROVÁVEL

Ana Maria M. González

Não fosse a curiosidade e empenho de uma jornalista, esta história estaria ainda embaixo do tapete e do preconceito da sociedade inglesa de final do séc XIX . Um jovem indiano consegue quebrar o protocolo e se transforma em amigo e confidente da Rainha Vitória. Uma amizade realmente improvável!  E ao mesmo tempo mobilizadora e inspiradora. Vejamos esta amizade e um pouco de história para entender melhor o que ela pode ter representado naquele contexto.

O ACASO

O diretor Stephen Frears construiu um filme que segundo alguns críticos, é adequado para o chá da tarde: VITÓRIA E ABDUL, O CONFIDENTE DA RAINHA (2017). Claro que há nessa qualificação um tom depreciativo. Como opiniões podem divergir, não concordo com elas. Trata-se de um filme bem feito, algo sofisticado e com variação entre tons mais sérios e outros cômicos. Todos com elegância e beleza.

Judi Dench está linda no papel de Victoria e Ali Fazal é um correto Abdul Karim. Interessante dizer que a jornalista responsável pela descoberta da história afirmou que “o filme é 90% fiel aos acontecimentos relatados em seu livro”. Em se tratando de narrativa de cunho histórico essa afirmação não é pouca coisa.

A jornalista Shrabani Basu encontrou na residência de veraneio da rainha do Reino Unido na ilha de Wight, documentos e foi em busca de mais. Seus achados revelaram a história desse jovem indiano (1863-1909) que foi elevado a uma posição de destaque ao lado da Rainha Vitória (1819-1901) a ponto de incomodar a corte inglesa.

UM POUCO DE HISTÓRIA


A história desse encontro foi intencionalmente escondida e provocou desde conversas nos corredores e tramas de todo tipo até confrontos mais sérios entre a corte e a Rainha. Depois de seu falecimento, houve uma queima de documentos e de objetos que pudessem revelar o que ocorrera entre ela e Abdul. Felizmente, a jornalista foi competente em sua pesquisa tendo conseguido desvendar o que estava escondido.

Além da descrição dessa amizade, outro dado pode nos surpreender. A imagem da Rainha Vitória não combina com a imagem que podemos ter a partir do que teria sido a era vitoriana da sociedade inglesa. Ela aparece como uma rainha que se entedia nas reuniões sociais típicas da corte e se transforma em contato com Abdul. Como se enquadraria nesse quadro, a ideia mais ou menos generalizada de uma era vitoriana severa?  

A Inglaterra do século do século XIX, apresentava valores “puritanos” : a poupança, a dedicação ao trabalho, a defesa da moral. Nesse panorama cultural, os homens tinham prioridades e as mulheres eram submissas ficando responsáveis pela manutenção do lar e da educação dos filhos. Havia um moralismo excessivo que chegou à condenação de Oscar Wilde e de Lorde Alfred Douglas por terem mantido um caso amoroso, para citar um caso mais conhecido de repressão de costumes.

Levando em conta estes dados, a Rainha Vitória pode estar um tanto fora do que se esperaria dela dentro desse contexto cultural sendo mulher e sendo rainha, portanto, com papel de mantenedora de um quadro conservador de comportamentos. Ao contrário do que poderíamos esperar dela, observamos que ela se mostra capaz de quebrar regras e de abrir horizontes e novos comportamentos.

ESTE ENCONTRO, OUTROS ENCONTROS

Foto real da Rainha Vitória e do jovem indiano
Segundo a narrativa do filme, o relacionamento entre a rainha e o jovem indiano teria começado por um olhar curioso do jovem que deve ter encontrado o olhar curioso velha rainha. Interessante, né mesmo?

No início do filme, ela aparece visivelmente enfastiada à mesa junto da corte. Nesse posto, ela deve ter se submetido a inúmeros jantares e banquetes próprios a função que desempenha. Sem se lembrar dos outros convidados, ela se interessou pelo jovem indiano que estaria na corte para lhe entregar uma moeda comemorativa. À primeira vista, o jovem indiano foi uma figura fora do esquema formal desse contexto. Quem sabe, um alívio na mesmice desses rituais sociais?  

Esse primeiro encontro entre eles aconteceu em 23 de junho de 1887, quando ele tinha apenas 24 anos e ela já chegava a 68 anos. Daí começou uma relação que se expandiu em assuntos ligados à Índia tendo acendido dentro dela o desejo de conhecimento. E ele tinha o que dizer para a velha senhora, tornada discípula segundo ela mesma que o elevou ao papel de seu mestre. Foram conversas de cunho cultural e pessoal, aulas da língua própria à elite indiana. Tudo isso agradava à velha rainha que rejuvenesceu nesse contato em alegria e disposição.

Mas, isso tudo significava romper normas sociais ligadas a preconceitos e, possivelmente, a interesses políticos. Dessa forma, enquanto viveu, a Rainha Vitória pode proteger Abdul perto de si, nas funções que eram possíveis. Chegou a trazer a família dele da Índia mostrando respeito e atenção.

Porém, quando ela morreu ele foi imediatamente mandado embora e teve seus documentos queimados. Na perspectiva da corte, esse relacionamento era uma exceção a ser evitada: uma amizade proibida.

São muitos os casos de relacionamento como esses que acontecem e muitas vezes, poderiam acontecer. Para que eles ocorram é necessário coragem e muita curiosidade que me parece neste nosso caso, o fator a deflagrar a situação. A coragem é necessária para romper com os preconceitos e para o confronto com todos eles, que serão sempre muitos.  

É maravilhoso que haja um trabalho de pesquisa histórica acordando fatos como esses que nos mostram como a vida acontece em todos os lugares nas ruas ou na corte. São encontros improváveis a nos ensinar como a vida pode ser surpreendente. E como a natureza humana é grandiosa sendo que, nesses casos, não pode ser explicada por critérios comuns. Tais amizades ultrapassam o que julgamos ser o normal, o adequado, o sensato. Mas têm espaço porque há afeto, respeito e admiração.

Claro que podemos encontrar elites ociosas e cortes disfarçadas em outros contextos geográficos e temporais. Cortes que se comprazem em repetidos jantares e formalidades monótonas. Ou outros rituais semelhantes na essência, mantenedores de formalidades vazias de sentido.  Mas, sempre haverá também olhares curiosos como os de Abdul e da Rainha Vitória.

Não percamos essas oportunidades quando passarem por nós! O improvável pode ser maravilhoso! Que esse possa ser um tema para nosso 2018! Que o exemplo de amor e de respeito entre a rainha e o jovem, possa  ser inspirador de olhares curiosos e amplificadores de nossa realidade!

Que o NATAL tenha passado em paz! Que 2018 seja próspero e cheio de saúde!

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

MARIA MARTINS, ARTISTA E MULHER

Ana Maria M. González

MARIA MARTINS? O documentário MARIA, NÃO ESQUEÇA QUE EU VENHO DOS TRÓPICOS descreve sua vida e obra. É uma escultora, gravurista, pintora, desenhista e escritora brasileira. Esposa de embaixador do Brasil. Agora você poderá saber que mulher extraordinária ela foi. Difícil estar entre esses papéis no começo do século XX. Daí o interesse por suas opções. Conhecê-la é estímulo para todas as mulheres, artistas ou não.


UMA VIDA DE MUITOS PAPÉIS

"Eu sei que minhas Deusas e sei que meus Monstros

sempre te parecerão sensuais e bárbaros.
/.../"você esquece
que eu sou dos trópicos, e de mais longe vinda,
vc esquece tudo isso, que de mais longe vindo
se mistura ainda nas minhas veias/.../”



O documentário MARIA, NÃO ESQUEÇA QUE EU VENHO DOS TRÓPICOS, com direção de Francisco C. Martins e Elisa Gomes, apresenta com inteligência uma quantidade enorme de entrevistas com historiadores, artistas, familiares da artista e especialistas do mundo das artes, além de imagens das obras de Maria (filmes e fotos). Além disso, o bom uso da linguagem do cinema e muita sensibilidade realizaram um filme lindo. Aquela sensação meramente jornalística que temos de documentários passa longe. 

Fiquei entusiasmada e, depois de assistir a essa obra-prima, li uma biografia de Maria Martins e andei por conteúdos dispersos pela internet. Por que motivo? Para saber mais a respeito de como ela construiu sua biografia e sua obra de artista.  

Maria nasceu em Campanha( 1894) e morreu no Rio de Janeiro (1973). Separou-se do primeiro marido, o historiador Otávio Tarquínio de Sousa, com a desaprovação da família, o que não deve ter sido fácil naquela época. Essa rebeldia, custou-lhe a perda da guarda da filha.

 Seu segundo marido foi o diplomata gaúcho Carlos Martins. Com ele, viveu parceria de objetivos e modo de vida. No papel de esposa de embaixador, ela viveu no Japão, Europa e nos EUA e participou de inúmeras atividades sociais e culturais, papel que desempenhava bem com sua beleza e personalidade vibrante.

Na Bélgica estudou com Oscar Jespers. Em Washington com Jacques Lipchitz, com quem aprende a trabalhar o bronze, abandonando o figurativismo. Quando monta um ateliê em Nova York, começa uma fase de dedicação intensa a sua atividade artística. Participou de mostras coletivas e em 1941, ganha uma exposição individual em Washington. Nada mal para quem teve em 1939 uma exposição abortada por causa da guerra, quando ainda estava na Europa.

Essa mesma guerra trouxe grande parte dos artistas para os EUA. Nessa época, então, conhece André Breton e, a partir dele, entre outros Piet Mondrian e Marcel Duchamp (com quem teve um relacionamento amoroso). Maria teve contato com todos, sabendo se dividir entre os compromissos de embaixatriz e os parceiros de sua vida de artista.

A partir da década de 50, voltando para o Brasil desempenhou papel essencial na propagação da arte tendo sido importante na organização das três primeiras Bienais de São Paulo.

Quando surgiram dificuldades para esculpir, começou a escrever. Foram artigos para o Correio da Manhã e livros sobre a China, a Índia e Nietzche. Elaborou outros assuntos como religiões e mitos que se fizeram presentes em sua obra de escultora.

Nesse percurso de mais de sete décadas, sua obra apresenta múltiplas expressões. E a escultura foi a mais produtiva. Mas, o que há ainda em sua história?  Falta a obra propriamente dita.

A OBRA

Dividida entre a vida de embaixatriz e a da escultora ela construiu uma obra que já ganhou sala especial na Bienal de SP em 1998; retrospectiva em Nova York (1998), cujo catálogo traz textos de André Breton, Micjel Tapie, Amedée Ozenfant e Murilo Mendes; biografia em 2004; retrospectiva no MAM-SP pelos quarenta anos de seu falecimento (2013) e documentário este ano. E esta lista não é completa.

E como são as esculturas de Maria? Formas intensas, tocadas por uma tensão emocional expressas em torcidos e retorcidos que impressionam. A própria Maria qualifica suas formas como deusas e monstros.

Maria Martins era “uma mulher de força extraordinária” e expressa esse vigor em suas peças. Há nelas uma vida e erotismo intenso. Suas figuras apresentam mãos e pés “que têm fome de espaço”, de acordo com um entrevistado. Falam de desejo e de uma fêmea devoradora.

A artista traz para suas formas uma energia selvagem junto a especial criatividade. Tendo entrado em contato com a Amazônia, incorporou seus mitos e suas divindades, “seu animismo e sua fecundidade tropical”.

Em toda sua obra, podemos perceber inquietação e ousadia. Podem ser, sim, formas que perturbam quem as observa por indicarem experiências humanas e misteriosas. É assim a escultura de Maria Martins: representa forças da natureza humana que gritam e nos mostram o que nem sempre é claro na existência humana.

Uma de suas peças que marca mais claramente esse aspecto quase primitivo é “O impossível” de 1946 que mostra duas criaturas possivelmente uma feminina e outra masculina, com cabeças em forma de tentáculos ameaçadores uns na direção dos outros.

Os especialistas nas artes identificam nessa obra o processo da atração sexual e da ameaça de morte. Talvez exista nele a expressão do amor como impossível. As formas se tocam e se repelem, contrapondo contato e perigo. Talvez essa peça represente o relacionamento entre ela e Marcel Duchamp.

Com charme e elegância foi esposa de embaixador, cumprindo todos os papéis sociais. E também foi a artista talentosa e com obra de repercussão internacional. Assim foi Maria, por quem Duchamp se apaixonou conforme demonstram as cartas que ele escreveu depois que ela voltou ao Brasil e que são lidas no documentário. Esse amante saudoso talvez tenha sido o parceiro na arte. Mas isso é apenas uma suposição da minha imaginação.

Pergunto-me como teria sido o relacionamento de Maria com Duchamp. Pelo documentário ficamos sabendo que a influência de um na obra do outro foi grande. Do ponto de vista pessoal, ela manteve seu casamento e família. Ele escreve cartas suspirando longamente seus desejos não mais preenchidos e sua saudade, os resmungos pela distância, a necessidade, a esperança de um novo encontro, tudo o que os amantes sofrem. Tudo está lá em delicadas cartas de amor.

Confesso uma curiosidade que se alonga também por essas paragens mais pessoais. Coisa de fã, quase de tiete. Maria Martins, além de ter sido eficiente nas recepções sociais, você foi artista e amante de Duchamp!

O crítico de arte Jayme Maurício (1926 -1997) diz a respeito dela: “Maria foi a personalidade que, sem abdicar jamais de sua feminilidade, representou no Brasil moderno do século XX tudo o que significou o surrealismo, na arte da escultura, na literatura, no sonho, na psicanálise, nas ciências, na política, no erotismo, na eterna busca do "Eu" e do "outro ", desde a natureza pujante da Amazônia à estratificação da mulher e sua atuação decisiva na virada do século”. Incrível, não é mesmo?

Maria nasceu mineira e morreu mulher da arte e do mundo. No recorte deste artigo, faltaram muitas informações a respeito dela. Que eu possa pelo menos ter deixado com você um pouco do retrato de uma mulher de uma força extraordinária.


PS:  Seguem o link para as entrevistas do comentário de 2017 e a indicação bibliográfica da biografia lida. https://www.liligopro.com.br/maria  (entrevistas)
Maria Martins, uma biografia . CALLADO, Ana Arruda. RJ: Gryphus;  Brasília, DF: Ministério da Cultura; BH: CEMIG, 2004.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

ADOLESCENTES E FANTASMAS ITALIANOS

Ana Maria M. González


Dois adolescentes e a presença das disputas da Máfia. Imaginação, excelente fotografia e direção. Eis os ingredientes para este bom filme: O FANTASMA DA SICÍLIA. A entrevista com os diretores, que estiveram em SP a convite da organização do evento, deu-me elementos para uma reflexão a respeito de aspectos da arte do cinema e da formação de público jovem. 

NOVIDADES DOS FESTIVAIS DE CINEMA 

Aconteceu em setembro último em oito cidades brasileiras um festival de cinema italiano, iniciado em Lisboa (2008). Tive a oportunidade de entrevistar os diretores Fabio Grassadonia e Antonio Piazza desse filme, que foram convidados pela organização do evento para vir ao Brasil. Esse seu segundo longa abriu a Semana de Crítica do Festival de Cannes deste ano e vale lembrar também que eles ganharam o prêmio revelação de Cannes em 2013 com seu primeiro no longa metragem (SALVO).

Este filme é uma adaptação do conto “Non saremo confusi per sempre” de Marco Mancassola e parte de um incidente real ocorrido na Itália nos anos 90, em que Giuseppe Di Matteo é sequestrado. Sua amiga e namorada (Luna) sentindo falta dele na escola, sai em busca de solução. É a partir de sua busca que se constrói a narrativa com características de sua imaginação e boas doses de desconsolo, tristeza e saudade. 

A entrevista que os diretores me concederam ocorreu em uma tarde clara à sombra de uma larga árvore. Foi interessante saber como anda a opção pelo cinema entre os jovens italianos e como esses diretores lidam com essa questão. Muitas semelhanças com o que ocorre no Brasil.  
 

CINEMA E LITERATURA     

A história do filme se baseia em um texto literário  e nos faz lembrar de Romeu e Julieta, também italianos. E fomos indagar o motivo desta escolha. Segundo os diretores, a garota Luna que é uma personagem inventada, permite a Giuseppe a experiência do amor que ele não teve em vida. 

E esse era o único ponto possível de ingresso na história porque a realidade era dura demais. Sem essa mudança, o filme contaria uma história sem esperança e eles desejavam que o filme fosse um ato de amor à história de Giuseppe. 

Luna é solitária, criativa e gosta de ficar quieta, fechada, escrevendo e desenhando. Não tem um contato fácil com o mundo natural que a circunda. Ela afirma que se sonhamos qualquer coisa, podemos dizer que isso existe. 


Giuseppe, ao contrário, é um garoto social, de comportamento vital, em harmonia com a natureza. Ele era apaixonado por cavalos e chegou a ter sucesso no salto de obstáculos na região em que morava. Era intenção dos diretores manter dados da realidade de Giuseppe. 

Temos a insatisfação e rebeldia dos adolescentes em contato com o inalcançável mundo do adulto com suas questões sociais e políticas. Por outro lado, temos também outras realidades criadas que abrem espaços para a experiência de amor. A possibilidade do amor entre os jovens é construída na imaginação. É no céu que eles se encontram, já que Giuseppe está no inferno. Trata-se de uma realidade escura em que não há tempo, imóvel, em que o casal se encontra a despeito do tempo da morte. A imaginação ganha a função nobre de salvar a humanidade. 


Além de cavernas e águas profundas, temos a cena das colunas gregas no alto de um monte, perto da praia, à frente da extensão imensa do mar. Há vento e horizonte. Esse espaço surge duas vezes e é a imagem da beleza siciliana que resiste a tudo, ao longo dos séculos e que se confronta à brutalidade, como se essa beleza fosse um baluarte contra o mal. 

Segundo os diretores, ainda que haja a opressão na Sicília, os garotos sabem reconhecer o valor dessa beleza. A experiência de dor faz Luna aprender a viver. Nesse espaço atemporal, ela refaz sua sensação de vida.

                             
AS PREFERÊNCIAS DOS DIRETORES

A literatura e a experiência como roteiristas fizeram parte da formação dos diretores e contribuíram sobremaneira para a realização dos dois longas, já que eles não fizeram um curso técnico de cinema. O seu método de trabalho acontece durante o processo de escrita. Nesse momento todos os detalhes de cenas, fotos e som são pensados. 


Sua prática de cinema tem um compromisso de refletir sobre a realidade, mas também de formar público. Por isso O FANTASMA DA SICÍLIA é um filme dedicado a um garoto siciliano e foi desejo que ele chegasse ao público jovem. Diferentemente de um filme de autor, que muitas vezes tem ambições intelectuais, eles tiveram a intenção de acompanhar o expectador em uma viagem emotiva, de modo a não passar pelo filtro protetivo da intelectualidade para que ele se abandonasse aos sentimentos dos protagonistas da história. Fábio e Antonio desejavam entrar na história com o coração, com a intensidade de uma experiência sensorial, pelas imagens. 



O público jovem em geral não gosta dos filmes italianos considerados por ele pouco interessante já que há uma natural preferência por aventuras e filmes de outras mídias. O que tem acontecido com esse filme é diferente e realiza as intenções dos diretores. 

A partir dessas observações, perguntei então o que é cinema para eles. Para Antonio Piazza, que respondeu sem hesitação, o cinema é o sonho, é sonhar. “Nosso imaginário cinematográfico guarda um legado do cinema clássico.”
 
Fábio Grassadonia expressa uma experiência pessoal. Em sua aproximação com os livros e com as narrativas sempre houve a participação da mente. Mas o cinema, que viveu desde pequeno com o pai, é uma experiência de se abandonar às emoções daquilo que está sendo visto. Ele diz: “Ainda que eu estude cinema, que ensine, que me interessa como funciona a máquina, quando vou ao cinema, vivo uma experiência emotiva.” No contato com a narrativa, com os livros, ele diz ter a possibilidade de afinar seus instrumentos e recursos. “No cinema, tenho a experiência de ser um expectador. ” 

A entrevista elucidou algumas intenções e ideias dos diretores acerca desse filme e de como eles desenvolvem sua obra. 

Mas, ainda há muito a ver nesse filme que traz um universo de metáforas e poesia, uma realidade em que o amor se torna possível a despeito da morte. Encontramos cores escuras, surpresas e mistério, um mundo lunar. E também uma praia, um mar imenso e colunas gregas atemporais, um mundo solar. Um filme que gera mundos de arte e de beleza. 

Mas, mais que tudo isso, é um filme que nos comove o coração e nos oferece uma experiência que além de estética é também emotiva. Mais uma expressão da arte do cinema.